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sexta-feira, 10 de maio de 2013

Queridos professores,
Pedro é neto de C. Drummond de Andrade.
Abraços,
Elana (PCNP LEM)

Um Neto no meio do caminho

Caçula dos três netos de Carlos Drummond de Andrade, o cenógrafo deixou de criar abelhas quando recebeu a missão do avô, que teria completado 100 anos quinta-feira 31, de cuidar de sua obra.
                                                                                             (Luís Edmundo Araújo)
 
Na manhã da segunda-feira 4, um homem de 42 anos posava para fotos ao lado da recém-inaugurada estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade, na praia de Copacabana, no Rio. O clima era de descontração e, entre as brincadeiras, ele fazia o tradicional chifre com os dedos indicador e médio por trás da cabeça do poeta. O fato chegou a causar protestos velados de quem viu a cena, mas ninguém que passava pelo calçadão da Avenida Atlântica sabia que o brincalhão em questão, o cenógrafo Pedro Drummond, tinha todo o direito de fazer aquilo, até para manter viva a irreverência de um Drummond que poucos conheciam. Caçula dos três netos do poeta – que, se fosse vivo, teria completado 100 anos em 31 de outubro – Pedro recebeu do avô, 12 dias antes de sua morte, a função de cuidar da sua obra.
A conversa entre avô e neto aconteceu após o enterro de Maria Julieta, única filha de Drummond, no dia 5 de agosto de 1987. “O Carlos me disse que teria de cuidar da sua obra e, caso tivesse dúvidas sobre o que fazer, me deixou os telefones de amigos dele, como Plínio Doyle, Fernando Sabino e Alfredo Machado (dono da editora Record, já falecido)”, lembra Pedro, que cultivava o hábito familiar de chamar o avô pelo nome. Largou então o sítio onde morava e criava abelhas, em Secretário, região serrana do Rio, para assumir a nova função.
Filho do poeta argentino Manuel Graña Etcheverry, Pedro nasceu em Buenos Aires e veio morar no Brasil em 1980.
Um ano antes, serviu o Exército argentino no quartel de La Tablada, junto com Diego Maradona, que já jogava pelo Argentinos Juniors. “O comandante era sócio do time e sempre liberava o Maradona. Ele foi ao quartel umas três vezes, mas juramos a bandeira argentina lado a lado”, conta o cenógrafo.
A relação com o avô se estreitou a partir de 1986, quando Drummond sofreu um infarto no dia das eleições e o neto passou a morar com a família, em Copacabana. A pedido da mãe, seguia o poeta escondido pelas ruas e ligava para a médica quando achava que o avô estivesse passando mal. Tudo porque Drummond fazia o possível para não incomodar ninguém. “Pedia para a médica ligar para ele, e só então o Carlos dizia o que estava sentindo”, diz.
Para o centenário do avô, Pedro não se limitou a cuidar de seu legado. Em parceria com o professor de teatro João Brandão, homônimo do personagem de Drummond, escreveu o roteiro, fez o cenário e até figurações na peça Caminhos de João Brandão, em cartaz no Rio. “Gosto de encontrar novas formas de difundir a obra do Carlos”, afirma o cenógrafo, que já alugou um balão onde foram escritos versos do poema “Amar” e pensa em mostrar o famoso “Havia Uma Pedra no Meio do Caminho” na pedra do Pão de Açúcar. Idéias aprovadas por Sérgio Machado, filho de Alfredo e herdeiro da Record, responsável pela obra de Drummond. “O Pedro tem sido feliz na luta para aumentar ainda mais a amplitude da obra do avô”, diz.
Outro que provavelmente aprovaria tudo isso seria o próprio poeta, que tinha humor até para brincar com a própria dentadura. “Quando uma criança andando com a mãe na rua olhava para o Carlos, ele botava a dentadura para fora. Então a criança chamava a mãe e, quando ela
se virava, a dentadura já estava no lugar, e a criança levava uma bronca, para ‘deixar o velhinho em paz’”, conta Pedro, que talvez por essas e outras histórias, não hesitou em brincar com sua estátua. Certamente, Drummond não se incomodaria.

Link da reportagem (ISTOÉ Gente - 11/11/2002)