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segunda-feira, 20 de maio de 2013

Segue um texto do Escritor Jauense Afonso Caramano sobre a obra O Beijo de Gustav Klimt.
Abçs a todos
Elana Caramano PCNP de LEM



Klimt

(Afonso Caramano – abril/2011)




Do outro lado da rua ficava a galeria. Era a quarta vez que voltava ali nas duas últimas semanas. As mãos estavam suadas. Hesitava, olhando no relógio. Não faltavam mais que cinco minutos para se iniciar a visita monitorada. Faria como das outras vezes, entraria discretamente, se aproximaria do grupo, misturando-se às demais pessoas e seguiria o roteiro, quase sem tirar os olhos dele, apenas desviando-os quando seus olhares se encontrassem, tentando disfarçar seu interesse, embalada por aquela voz forte e acolhedora.

Não tinha certeza como aquilo terminaria, nem bem porque estava ali novamente, entre estranhos, percorrendo as salas, mal conseguindo prestar atenção nas explicações dele, senão no ritmo, no timbre da voz, na paixão flamejante com que falava daquelas obras. Talvez nunca tivesse coragem de dirigir-lhe uma palavra, achava que se engasgaria como uma adolescente, dizendo uma banalidade qualquer. O que realmente estava acontecendo com ela?

Faltava uma última sala, reservara aquela surpresa para os visitantes daquela manhã – disse ele, examinando o rosto de cada um. Eram réplicas, pôsteres de um famoso pintor austríaco, parece que simbolista, algo especial que a galeria estava preparando, mas que nós teríamos o privilégio de ver, essas coisas – conseguiu entender, com o coração disparado, já que não estava mais de um passo dele. Seguiu junto com o grupo, como que entorpecida, e sentindo-se uma boba.

Ia descrevendo a importância de cada obra, de cada fase do pintor, explanando sobre as formas, as cores, a paixão em cada pincelada, numa gradação de cores e luz como só pode traduzir o sentimento humano – o confuso sentimento que ela não saberia definir, que viera numa convulsão e que agora reverberava diante de seus olhos, naqueles retratos de mulheres, ela própria ganhando aos poucos contornos e expressão, apenas conduzida como uma criança adulta, por um indefinível caminho, à beira de si mesma, como se aflorasse sobre a pele bronze do fundo, em matizes dourados, o desejo no instante mais tenso que precede o beijo, ela de joelhos sobre agapantos, envolvida no manto de um abraço impossível, sentindo o corpo estremecer-lhe, os dedos rijos numa luta incontida, a face voltada, sonegando a treva da paixão avassaladora que a tomava inteira, quando já não podia ver mais nada, um só corpo, o amor, se era isso o amor, ao qual se entregava, aflita, vencida, amante, perdida de si mesma.

Quando recuperou os sentidos ainda estava amparada nos braços dele, algumas pessoas em volta, alguém oferecendo um copo d'água. Era isso o amor – disse, atordoada. Ele concordou com a cabeça e um sorriso malicioso.

– Não devemos nunca duvidar do poder de uma obra de arte – brincou. Todos riram ao redor, vendo que ela estava melhor. Ajudou-a a levantar-se. Trocaram mais algumas palavras. Ele disse que a esperaria na próxima semana, já que reparara que ela gostava mesmo de arte...

Ainda meio sem jeito, ela respondeu que viria sim, se ele não se importasse. Ele confirmou que seria um prazer, e quem sabe até poderiam conversar mais sobre arte e outros assuntos, indo almoçar juntos – completou. Só foi capaz de assentir com a cabeça, um sorriso nervoso no rosto pálido, os olhos turvos como numa das pinturas, as mãos suadas, os passos sem rumo já na calçada, o sol a pino, a avenida, as pessoas apressadas e a nítida luz inundando o dia de amarelos, dourados, azuis, vermelhos – e nem perguntara o nome dele! Também não importava, pensou, daí pra frente seria Klimt.